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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Bastidores das pesquisas em percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Luiz Paulo Juttel    <br> Colabora&ccedil;&atilde;o: Adriana Lima</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dados do Minist&eacute;rio da Ci&ecirc;ncia e Tecnologia (MCT) mostram que 41% dos 2000 brasileiros entrevistados em 2006 s&atilde;o muito interessados por ci&ecirc;ncia e tecnologia. Essa informa&ccedil;&atilde;o foi extra&iacute;da de uma das maiores pesquisas de pesquisa de percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da ci&ecirc;ncia realizada no pa&iacute;s. S&atilde;o os resultados dessas pesquisas, que t&ecirc;m crescido nos &uacute;ltimos anos, que subsidiam algumas pol&iacute;ticas p&uacute;blicas relacionadas &agrave; divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. Se tais dados s&atilde;o amplamente difundidos, o mesmo n&atilde;o tem ocorrido com o processo de planejamento e execu&ccedil;&atilde;o das enquetes de opini&atilde;o p&uacute;blica que resultam nos dados percentuais. Nesta reportagem vamos aos bastidores desse processo, trazendo &agrave; tona os principais desafios enfrentados pelos pesquisadores.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n100/a07fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Carmelo Polino, pesquisador de percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da ci&ecirc;ncia da Rede Iberoamericana de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia (Ricyt) na Argentina, os desafios j&aacute; come&ccedil;am na elabora&ccedil;&atilde;o dos formul&aacute;rios de pesquisa. "&Eacute; importante ter bem claro os objetivos de investiga&ccedil;&atilde;o chamados por Noelle-Neumann, uma cl&aacute;ssica pesquisadora de estudos de opini&atilde;o, de 'perguntas de programa'. Estas perguntas precisam ser traduzidas em 'perguntas de prova' que nos dir&atilde;o como averiguar o que queremos saber. Ambas as perguntas s&atilde;o fatores capitais para o bom desenho metodol&oacute;gico da medi&ccedil;&atilde;o".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A elei&ccedil;&atilde;o e formula&ccedil;&atilde;o das perguntas espec&iacute;ficas &eacute; realmente um ponto chave da constru&ccedil;&atilde;o de question&aacute;rios de percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da ci&ecirc;ncia. A formula&ccedil;&atilde;o ideal, que evite ao m&aacute;ximo a ocorr&ecirc;ncia de erros induzidos, a elabora&ccedil;&atilde;o de indicadores e escalas de medi&ccedil;&atilde;o adequadas e at&eacute; mesmo a forma como as perguntas estar&atilde;o ordenadas no question&aacute;rio s&atilde;o fatores que precisam ser levados em considera&ccedil;&atilde;o pelos pesquisadores para diminuir ao m&aacute;ximo as distor&ccedil;&otilde;es no resultado final. At&eacute; o tamanho do formul&aacute;rio precisa ser cuidadosamente calculado para evitar que as pessoas se cansem e passem a responder as quest&otilde;es de qualquer jeito, simplesmente para terminar a entrevista o mais r&aacute;pido poss&iacute;vel. Por exemplo, na recente enquete de percep&ccedil;&atilde;o feita pela equipe do Laborat&oacute;rio de Estudos Avan&ccedil;ados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp, o tempo m&eacute;dio de entrevista foi de 35 a 45 minutos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa pesquisa integra o "Projeto Ibero Am&eacute;rica de Percep&ccedil;&atilde;o P&uacute;blica da Ci&ecirc;ncia" que o Labjor desenvolve junto com a Ricyt. Participaram da pesquisa, al&eacute;m do Brasil, mais sete pa&iacute;ses: Col&ocirc;mbia, Argentina, Venezuela, Espanha, Panam&aacute;, Chile e Portugal, sendo que este &uacute;ltimo participou da organiza&ccedil;&atilde;o mas n&atilde;o aplicou a pesquisa. As an&aacute;lises e resultados ser&atilde;o divulgados na segunda edi&ccedil;&atilde;o do livro de <i>Indicadores de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia do Estado de S&atilde;o Paulo</i>, a ser lan&ccedil;ado pela Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de S&atilde;o Paulo (Fapesp) ainda este ano. Na primeira edi&ccedil;&atilde;o, em 2005, o livro traz no <a href="http://www.fapesp.br/indicadores2004/volume1/cap12_vol1.pdf." target="_blank"> cap&iacute;tulo 12</a>, "Percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da ci&ecirc;ncia: uma revis&atilde;o metodol&oacute;gica e resultados para S&atilde;o Paulo", os esfor&ccedil;os do Labjor em desenvolver indicadores de percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da C&amp;T, os estudos de caso em tr&ecirc;s munic&iacute;pios de S&atilde;o Paulo e as converg&ecirc;ncias entre os resultados das pesquisas realizadas em S&atilde;o Paulo e em outros pa&iacute;ses. Os trabalhos desenvolvidos pela equipe do Labjor integram-se tamb&eacute;m &agrave;s pesquisas desenvolvidas na London School of Economics coordenadas pelo professor Martin Bauer.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>P&uacute;blico pesquisado e modelo de d&eacute;ficit</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um segundo aspecto a ser analisado por quem executa uma pesquisa de percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da ci&ecirc;ncia &eacute; a escolha do p&uacute;blico a ser entrevistado. Qual &eacute; a amostra base adequada para representar de forma fidedigna a popula&ccedil;&atilde;o que se busca estudar? Alguns estudos mostram que enquetes de opini&atilde;o, nas quais a amostra &eacute; formada em grande parte por homens ou pessoas de situa&ccedil;&atilde;o financeira mais elevada, tendem a gerar resultados bem diferentes de amostras com outras caracter&iacute;sticas. Os mesmos estudos apontam os fatores culturais e cognitivos das pessoas pesquisadas como respons&aacute;vel pelas diferen&ccedil;as nos resultados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma <a href="http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=1090044" target="_blank"> pesquisa</a> de Dan M. Kahn, professor da Yale Law School, refor&ccedil;a essa tese. Kahn analisou a percep&ccedil;&atilde;o do risco associado &agrave; nanotecnologia para 1600 norte-americanos de ambos os sexos, com bom n&iacute;vel educacional e de diferentes grupos &eacute;tnicos. Tais pessoas foram divididas em dois grupos. Para um deles as perguntas de percep&ccedil;&atilde;o foram feitas sem que seus membros tivessem acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o alguma sobre o tema. Para o outro, o question&aacute;rio foi aplicado depois delas terem contato com certa quantidade de informa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No grupo que n&atilde;o recebeu informa&ccedil;&atilde;o a percep&ccedil;&atilde;o de risco da nanotecnologia se diversificou conforme o g&ecirc;nero dos entrevistados. Homens consideraram baixo o risco da nanotecnologia uma vez comparados a mulheres em mesmas condi&ccedil;&otilde;es. Nesse grupo n&atilde;o houve diferen&ccedil;a de percep&ccedil;&atilde;o entre os g&ecirc;neros. J&aacute; no grupo que obteve informa&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via sobre nanotecnologia, a percep&ccedil;&atilde;o de risco foi menor entre os homens e maior entre as mulheres.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os resultados obtidos por Kahn servem de cr&iacute;tica ao chamado "modelo de d&eacute;ficit". Pois, eles mostram que n&atilde;o h&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o direta entre o acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e a classifica&ccedil;&atilde;o positiva do risco da nanotecnologia pelos v&aacute;rios grupos populacionais. Kahn tamb&eacute;m alega em seu estudo que a informa&ccedil;&atilde;o que chega &agrave; popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; neutra, objetiva e capaz de derrubar posi&ccedil;&otilde;es obscurantistas, como prega tal modelo por ele criticado. "A informa&ccedil;&atilde;o passa por filtros culturais e pol&iacute;ticos de cada indiv&iacute;duo e isso pode gerar diferentes percep&ccedil;&otilde;es", diz Kahn.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O fato &eacute; que, ao longo da hist&oacute;ria das pesquisas de percep&ccedil;&atilde;o, uma s&eacute;rie de cr&iacute;ticas tem sido feita ao "modelo de d&eacute;ficit" e ao seu impacto na divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica na tentativa de melhorar os indicadores das enquetes. Escapar a esse modelo tem sido um desafio enfrentado por muitos pesquisadores e divulgadores, que pretendem pensar a divulga&ccedil;&atilde;o e a percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica para <a href="http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=37&id=436" target="_blank"> al&eacute;m da informa&ccedil;&atilde;o</a>. Isso n&atilde;o significa negar a import&acirc;ncia da informa&ccedil;&atilde;o, visto que os &iacute;ndices oferecidos pelas pesquisas anteriores, como lembra o pesquisador do Labjor Yurij Castelfranchi, s&atilde;o considerados preocupantes. "Os Estados Unidos est&atilde;o entre os pa&iacute;ses com pior n&iacute;vel de alfabetiza&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, mas as pessoas t&ecirc;m grande confian&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; ci&ecirc;ncia e suas aplica&ccedil;&otilde;es. J&aacute; na Europa, v&aacute;rios estudos mostraram que os melhores n&iacute;veis de conhecimento cient&iacute;fico se tornam &agrave;s vezes sin&ocirc;nimos de um maior n&iacute;vel de aten&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica e preocupa&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o a alguns setores da ci&ecirc;ncia contempor&acirc;nea e seu impacto social".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Outras influ&ecirc;ncias nos resultados das enquetes</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se a escolha do p&uacute;blico reflete no resultado de uma pesquisa de percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da ci&ecirc;ncia, o trabalho do entrevistador tamb&eacute;m pode p&ocirc;r tudo a perder. "Treinamento adequado aos entrevistadores &eacute; algo importante. Pois, muitas vezes, eles incidem negativamente no resultado de uma pesquisa ao colaborar de forma impr&oacute;pria, expondo suas opini&otilde;es enquanto ajuda o entrevistado a responder", afirma Carmelo Polino.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No <a href="http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-753X2006000100005&script=sci_arttext&tlng=entarget=_blank" target="_blank"> artigo</a> "Transg&ecirc;nicos e percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da ci&ecirc;ncia no Brasil" a professora do Departamento de Ci&ecirc;ncias Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Julia Silvia Guivant, aponta outros fatores que podem gerar distor&ccedil;&otilde;es em pesquisas de percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da ci&ecirc;ncia. Entre eles est&atilde;o a forma em que &eacute; realizada a pesquisa (por telefone, comum nos Estados Unidos ou face a face como ocorre na Am&eacute;rica Latina e Europa) e a informa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica oferecida aos entrevistados. Como exemplo deste &uacute;ltimo Guivant cita o caso do termo "biotecnologia" que tem sido mais bem aceito em alguns pa&iacute;ses do que o termo "organismos geneticamente modificados".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No entanto, quando o planejamento da pesquisa e a supervis&atilde;o do trabalho de campo s&atilde;o bem executados, as pesquisas de percep&ccedil;&atilde;o geram bons indicadores que possibilitam a formula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas bem informadas. "Se um governo quer fomentar a leitura de livros de divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, por exemplo, &eacute; importante dispor de uma base emp&iacute;rica que diga qual a rela&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico com esses conte&uacute;dos comunicativos", afirma Polino.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Padr&atilde;o nas pesquisas de percep&ccedil;&atilde;o na ibero-am&eacute;rica</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Desde 2005, a equipe da Ricyt que trabalha com percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica de ci&ecirc;ncia, no Brasil liderada pelo Labjor-Unicamp, enfrentou um novo desafio: encontrar um question&aacute;rio padr&atilde;o que possa ser aplicadosimultaneamente em todos os pa&iacute;ses participantes do projeto. &Eacute; que, segundo eles, n&atilde;o adianta aplicar question&aacute;rios de percep&ccedil;&atilde;o isolados sem criar uma forma de compara&ccedil;&atilde;o dos resultados entre os pa&iacute;ses.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em reuni&atilde;o ocorrida em abril deste ano em Campinas, pesquisadores de v&aacute;rios pa&iacute;ses membros analisaram todas as pesquisas realizadas dentro do projeto na busca da unifica&ccedil;&atilde;o dos question&aacute;rios.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nessa reuni&atilde;o foram estabelecidos quatro eixos de an&aacute;lise para as pr&oacute;ximas pesquisas. S&atilde;o eles: interesse e informa&ccedil;&atilde;o em C&amp;T, valora&ccedil;&otilde;es e atitudes sobre C&amp;T, apropria&ccedil;&atilde;o individual e social da C&amp;T e, cidadania e pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de C&amp;T. O grupo pretende lan&ccedil;ar em breve um manual que oriente futuros estudos dessa esp&eacute;cie.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas essa equipe sabe que realizar pesquisas sobre percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica com uma enquete &uacute;nica em diferentes pa&iacute;ses, exige a compreens&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s especificidades de cada pa&iacute;s ou regi&atilde;o. O poss&iacute;vel entendimento das perguntas devido &agrave;s diferen&ccedil;as culturais deve ser observado, assim como fatos cient&iacute;ficos ou pol&iacute;ticos ocorridos no per&iacute;odo de realiza&ccedil;&atilde;o da pesquisa podem influenciar aqueles que s&atilde;o diretamente afetados por essas quest&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que n&atilde;o pode ocorrer &eacute; a interrup&ccedil;&atilde;o da seq&uuml;&ecirc;ncia de pesquisas, pois, "a verdadeira utilidade das pesquisas de percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da ci&ecirc;ncia se revela quando se realizam seq&uuml;&ecirc;ncias temporais de enquetes. A&iacute; &eacute; que se tem a possibilidade de analisar, por exemplo, o que mudou na percep&ccedil;&atilde;o de gera&ccedil;&otilde;es sobre certas quest&otilde;es de capital import&acirc;ncia para as sociedades. Todavia, a Am&eacute;rica Latina est&aacute; prematura nisso. Os estudos precisam continuar e os pesquisadores precisam se comprometer com eles", conclui Polino.</font></p>      ]]></body>

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