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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESENHA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Consumismo apático</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Nereide Cerqueira</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n99/resenha01.jpg"></p>     <p align="center">&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Filme reflete    sobre consumo e questiona apelo fetichista do mercado na decisão de compra de    produtos pelo consumidor.</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Um supermercado    branco que, ao invés de produtos, vende caixas vazias com dizeres que vão desde    <i>slogans </i>famosos até frases de auto-ajuda. Esse é o cenário predominante    de <a href="http://www2.uol.com.br/umnovenove/" target="_blank">1,99 - Um supermercado    que vende palavras</a>. Não se trata de um filme comum. Ao contrário, a crítica    o caracteriza com adjetivos que variam de "diferente" ou "estranho" até "entediante"    ou "falso".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Apesar das percepções,    que vão do amor ao ódio, não se pode negar que o filme leva à reflexão sobre    a sociedade de consumo na qual estamos imersos e sobre o porquê de nossa apatia    e passividade perante os apelos da publicidade. Dirigido por Marcelo Masagão,    <i>1,99 </i>foi concebido depois da leitura do livro <a href="http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&amp;edicao=11&amp;tipo=resenha">Sem    logo</a>, de Naomi Klein, que trata da necessidade das grandes marcas se fetichizarem    cada vez mais, e diz que o slogan é mais importante que o produto em si. No    caso do filme, o preço 1,99 e as "palavras" escritas nas embalagens acabam sendo    mais importantes do que os próprios produtos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os personagens-consumidores    são apáticos, parecem robôs direcionados, influenciados pelos dizeres que são    lidos nas prateleiras: "seja você mesmo", "você é único", "você conhece, você    confia". O que se vende é a realização dos desejos, sejam eles consumíveis ou    não. Seqüências sem cortes, com a luz vinda de baixo, dão o tom impessoal e    asséptico que contribui para a sensação de estranhamento que se tem ao assistir    o filme.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As seqüências compõem-se    de pequenas estórias que utilizam metáforas, por vezes incompreensíveis a primeira    vista. Um personagem é submetido a um tipo de avaliação onde é possível que    ele veja toda sua trajetória de consumo, mostrando produtos que fizeram parte    de sua vida desde a infância até a idade adulta, numa relação entre consumo    e status social e cultural. A indústria da beleza e do culto à forma também    é abordada, quando uma mulher magra vai ao provador e, ao olhar-se no espelho,    enxerga-se gorda. Ou ainda, quando todos os personagens começam a fazer ginástica    num mesmo momento. Aliás, a padronização de comportamento é abordada numa situação    semelhante, quando todos começam a falar ao telefone celular na mesma hora.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esses momentos,    em que todos os personagens fazem as mesmas coisas, como se influenciados por    uma força maior, trazem à mente o poder que a propaganda tem sobre os comportamentos    de compra e consumo e como as pessoas se iludem com as armadilhas criadas pela    publicidade. Em meio a esse universo, surgem cenas excêntricas como a de uma    vaca com os dizeres "just do it" no meio do supermercado, com um líquido amarronzado    jorrando de suas tetas, sugerindo que seu leite já vem com achocolatado. Viés    tecnológico e científico do consumo que merece reflexão.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n99/resenha02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A apatia dos consumidores,    às vezes, dá lugar à curiosidade, como quando dois homens disputam a última    embalagem de "por que somos mamíferos" e todos param para ver a luta física    que só termina quando um dos "lutadores" está desacordado. Uma porta misteriosa    mostra diferentes situações a quem atravessa seus limites. Uma delas é a pobreza    tratada como show quando um grupo se diverte tirando fotos de mendigos. Há inclusive    a distribuição de frascos direcionados a pessoas que tenham diferentes sintomas:    "obsessão", "paranóia", "prisão de ventre", "chocólatra"... Seria uma referência    à cura para todos os males da indústria farmacêutica?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma das cenas mais    comentadas é a do caixa eletrônico para saque de dinheiro, que sugere uma relação    sexual, e culmina com a saída do dinheiro da máquina. O prazer e o poder de    compra juntos. Mas nada passa despercebido ao sistema. Com câmeras por todos    os lados, a segurança logo percebe uma tentativa de furto e trata de impedi-la.    Não há caixas para pagamento, mas lugares onde se escolhe a forma de adquirir    a dívida: seis meses, 12 meses... Quem não tem dinheiro, não tem vez. Sai de    mãos vazias, para juntar-se às outras pessoas excluídas, que não podem entrar    no "templo do consumo". </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mesmo nesse ambiente    impessoal, há um instante em que as pessoas se encontram e é possível perceber    que, à revelia da imposição das prateleiras, as relações humanas parecem se    sobressair. Por alguns momentos, os personagens parecem dar-se conta de suas    histórias individuais e mostram-se à procura de suprir suas necessidades mais    íntimas. Mas nem tudo é tranqüilo e a seqüência das cenas pretende provocar    angústia. Um congestionamento de carrinhos causa irritação e comportamentos    atípicos, como um ataque de riso em uma das personagens. Num dado momento, a    trilha sonora, do belga Wim Mertens, é interrompida por um grupo que faz uma    performance musical, numa tentativa frustrada de acabar com o tédio predominante.    E outras tentativas de acabar com a alienação do consumo se seguem, até a catarse    final.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O filme tem como    referência a teoria das redes, que estuda os fenômenos sociais a partir de redes    de interesses e relativiza a sociedade a partir das polaridades das classes    sociais. Segundo o diretor, a injustiça social não é o único viés possível para    se compreender o ser humano, ao contrário, atrapalha a compreensão das relações    da sociedade, cada vez mais complicada. Para ele, nossa fragilidade está no    fetiche: "somos fetichistas e muito susceptíveis à própria propaganda e aos    seus slogans". Nesse supermercado não há cor, não há marcas, só frases com o    apelo usado para que comprem seus produtos, ou seja, vendem-se palavras, vendem-se    slogans e, em última análise, vendem-se fetiches.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Masagão, também    diretor dos documentários <i>Nós que aqui estamos por vós esperamos</i>, <i>Nem    gravata nem honra </i>e <i>Um pouco mais, um pouco menos</i>, consegue trazer    a discussão acerca do consumismo, assunto que não é novidade, à categoria de    cinema-arte. Não se trata, porém, de entretenimento fácil, mas sim de um filme    para ser visto com espírito crítico e que leva à reflexão.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Filme: 1,99 – Um    supermercado que vende palavras    <br>   Direção: Marcelo Masagão    <br>   Brasil, 2003</font></p>      ]]></body>

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