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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Neurocientista discute como o silêncio e os ruídos afetam o cérebro e a qualidade de vida]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>ENTREVISTA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>Chamada de capa: Neurocientista discute     como o sil&ecirc;ncio e os ru&iacute;dos afetam o c&eacute;rebro e a qualidade de vida</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Iv&aacute;n Izquierdo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">M&eacute;dico e pesquisador na   &aacute;rea de neuroci&ecirc;ncias, o argentino radicado no Brasil Iv&aacute;n Izquierdo &eacute;   respons&aacute;vel pelo descobrimento dos principais mecanismos moleculares de   forma&ccedil;&atilde;o, evoca&ccedil;&atilde;o, manuten&ccedil;&atilde;o e extin&ccedil;&atilde;o das mem&oacute;rias, e da separa&ccedil;&atilde;o   funcional entre as mem&oacute;rias de curta e longa dura&ccedil;&atilde;o. Ao longo de sua carreira,   recebeu mais de 60 pr&ecirc;mios e distin&ccedil;&otilde;es nacionais e internacionais, entre eles   a Gr&atilde;-Cruz da Ordem do M&eacute;rito Cient&iacute;fico (1996), o Pr&ecirc;mio Conrado Wessel (2007)   e o Pr&ecirc;mio Almirante &Aacute;lvaro Alberto (2010). Professor da PUC-RS onde &eacute; coordenador   cient&iacute;fico do Instituto do C&eacute;rebro, Izquierdo &eacute; autor   de 17 livros, incluindo <i>Sil&ecirc;ncio, por favor</i>, no qual trata o tema ru&iacute;do   sob v&aacute;rias perspectivas. Nesta entrevista, o pesquisador discute o assunto e   sua rela&ccedil;&atilde;o com a neuroci&ecirc;ncia, abordando como os ru&iacute;dos da sociedade   interferem no c&eacute;rebro e na qualidade de vida.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>O que o senhor considera como ru&iacute;do   na sociedade atual?</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2"><b>Iv&aacute;n Izquierdo</b><b> -</b> O ru&iacute;do &eacute; definido por   f&iacute;sicos como o conjunto de todas as informa&ccedil;&otilde;es dentre as quais &eacute; dif&iacute;cil   distinguir as que realmente nos interessam, chamadas de sinais. No meio da   balb&uacute;rdia generalizada, queremos distinguir uma voz que nos chama. A voz &eacute; um   sinal; a balb&uacute;rdia &eacute; o ru&iacute;do. Mas o ru&iacute;do n&atilde;o &eacute; apenas auditivo, &eacute; tamb&eacute;m   visual, lingu&iacute;stico e multissensorial. Em meio a todas as informa&ccedil;&otilde;es de todos   os jornais, queremos descobrir uma not&iacute;cia que nos interessa. A not&iacute;cia &eacute; um   sinal, e o conjunto de todas as informa&ccedil;&otilde;es &eacute; o ru&iacute;do. Na rua, o sinal   "proibido virar &agrave; direita" fica oculto por dezoito placas de propagandas ou   quatro <i>outdoors</i> gigantes. O livro de boa literatura que quer&iacute;amos   comprar fica perdido no meio da massa de lixo verbal que costuma ocupar quase   por completo as prateleiras das livrarias. Em meio a oito aparelhos de som   tocando ao mesmo tempo, um deles reproduz uma sonata de Chopin. Queremos   ouvi-la; a sonata &eacute; um sinal. O resto &eacute; ru&iacute;do.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Em sua opini&atilde;o, os ru&iacute;dos t&ecirc;m   piorado ao longo do tempo?</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Izquierdo</b><b> -</b> As primeiras cr&iacute;ticas aos   ru&iacute;dos v&ecirc;m de s&eacute;culos atr&aacute;s. A mais forte foi a de Santiago Ram&oacute;n y Cajal,   considerado o pai da neuroci&ecirc;ncia. Ele escreveu um livro no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX   chamado <i>A vida aos oitenta anos</i>, no qual j&aacute; se queixava dos ru&iacute;dos das   r&aacute;dios, da balb&uacute;rdia das ruas, dos telefones barulhentos. Hoje em dia isso tudo   est&aacute; multiplicado por dez mil. O n&uacute;mero de habitantes do planeta &eacute; cada vez   maior e as m&aacute;quinas que fomos inventando no &uacute;ltimo s&eacute;culo n&atilde;o funcionam sem   produzir ru&iacute;dos. Temos o barulho da televis&atilde;o, mais esta&ccedil;&otilde;es de r&aacute;dio,   telefones celulares e carros pelas ruas gerando tanto o barulho do tr&acirc;nsito   como o de m&uacute;sicas que chegam aos ouvidos daqueles que n&atilde;o as querem escutar,   por meio de poderosos amplificadores de som.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Como esses ru&iacute;dos afetam o c&eacute;rebro   e, consequentemente, os processos cognitivos, de mem&oacute;ria e de   aprendizagem?&nbsp;Qual a import&acirc;ncia do sil&ecirc;ncio para esses processos? </b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Izquierdo</b><b> -</b> Obviamente, eles afetam   de maneira negativa. H&aacute; uma importante regi&atilde;o do c&eacute;rebro, chamada lobos   frontais, dedicada a examinar toda informa&ccedil;&atilde;o que chega aos nossos sentidos,   extrair dela os sinais que realmente interessam e verificar se s&atilde;o importantes   a ponto de serem guardadas em nossa mem&oacute;ria. Gra&ccedil;as &agrave; fun&ccedil;&atilde;o dessa regi&atilde;o   cerebral, que opera como um filtro, conseguimos distinguir os sinais do ru&iacute;do e   nos comunicarmos com o meio de maneira satisfat&oacute;ria. O excesso de ru&iacute;do n&atilde;o nos   deixa perceber, conhecer e reconhecer os sinais. Ele complica a fun&ccedil;&atilde;o   anal&iacute;tica do nosso c&eacute;rebro, satura nossa mem&oacute;ria operacional e prejudica os   processos de forma&ccedil;&atilde;o de mem&oacute;ria e de aprendizagem.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">No sil&ecirc;ncio somos capazes de distinguir   mais facilmente os sinais. Portanto, &eacute; sem d&uacute;vida melhor para o processo de   aprendizagem e forma&ccedil;&atilde;o de mem&oacute;rias.&nbsp;O   sil&ecirc;ncio de intervalos tamb&eacute;m &eacute; importante para dar descanso a nossa mente e   impedir que sejamos atropelados pela continuidade de est&iacute;mulos sonoros ou   visuais. Pesquisas revelaram que o ser humano apresenta oscila&ccedil;&otilde;es da   capacidade de aten&ccedil;&atilde;o - que dura aproximadamente noventa minutos. Depois   desse tempo h&aacute; quedas no n&iacute;vel de aten&ccedil;&atilde;o. Por isso a maioria dos espet&aacute;culos   teatrais, musicais ou filmes t&ecirc;m dura&ccedil;&atilde;o aproximada de noventa minutos. O   sil&ecirc;ncio dos intervalos tamb&eacute;m &eacute; importante porque nossa capacidade de   armazenar mem&oacute;rias &eacute; satur&aacute;vel, ou seja, podemos absorver e armazenar certo   n&uacute;mero de informa&ccedil;&otilde;es consecutivas. Depois disso, precisamos dar um descanso   para os sistemas cerebrais poderem absorver mais dados.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Quando o sil&ecirc;ncio &eacute; prejudicial?</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Izquierdo</b><b> -</b> H&aacute; v&aacute;rios tipos de   sil&ecirc;ncio e alguns deles s&atilde;o prejudiciais. H&aacute;, por exemplo, o sil&ecirc;ncio imposto,   de n&atilde;o nos permitir expressar nossas ideias ou nossos sentimentos, como nos   imp&otilde;em os m&uacute;ltiplos mand&otilde;es deste mundo. H&aacute; muitas formas de impor sil&ecirc;ncio,   como pela repress&atilde;o pol&iacute;tica ou religiosa.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Da perspectiva da neuroci&ecirc;ncia,   temos o sil&ecirc;ncio da mente vazia, encontrado, por exemplo, em doen&ccedil;as   degenerativas do c&eacute;rebro, principalmente nas dem&ecirc;ncias. Nelas, morrem   neur&ocirc;nios, perdem-se com eles suas conex&otilde;es e desaparecem mem&oacute;rias j&aacute;   armazenadas - e a capacidade de formar outras. O c&eacute;rebro deixa   gradativamente de ser capaz de emitir sinais ou ru&iacute;dos, entrando aos poucos em   um estado de sil&ecirc;ncio. A dem&ecirc;ncia mais comum &eacute; a doen&ccedil;a de Alzheimer.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>O que s&atilde;o os "ru&iacute;dos que v&ecirc;m de   dentro", citados em seu livro <i>Sil&ecirc;ncio, por favor</i>, e qual a rela&ccedil;&atilde;o com   doen&ccedil;as psicol&oacute;gicas?</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2"><b>Izquierdo</b><b> -</b> Chamo de "ru&iacute;dos que v&ecirc;m   de dentro" as tantas ideias que nos preocupam, os temores do que possa vir a   acontecer, as ang&uacute;stias que nos devoram. Muitas vezes esses ru&iacute;dos s&atilde;o os   sintomas de doen&ccedil;as psicol&oacute;gicas, como ansiedade, mania ou depress&atilde;o.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A ansiedade pode ser aguda ou cr&ocirc;nica. A aguda &eacute; decorrente   de um medo real, de um susto ou de fobias. Quando o medo &eacute; real, temos que   deixar a ang&uacute;stia se manifestar, mesmo com toda a bagagem de suor frio,   hipertens&atilde;o e taquicardia; s&atilde;o esses elementos que podem determinar nossa   sobreviv&ecirc;ncia. Temos que sair da frente quando um caminh&atilde;o tenta nos atropelar.   J&aacute; a ansiedade cr&ocirc;nica &eacute; muito prejudicial, podendo provocar danos graves ao   organismo e resultar em s&iacute;ndromes complexas e de dif&iacute;cil tratamento. &Eacute; dif&iacute;cil   estabelecer um limite entre a ansiedade normal e a patol&oacute;gica, mas &eacute; &uacute;til   verificar se ela &eacute; recorrente e/ou se nos sentimos debilitados ou seriamente   perturbados por ela.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">J&aacute; na mania, o &acirc;nimo do paciente pode ficar estimulado at&eacute;   fora do controle. Ele &eacute; invadido por ideias euf&oacute;ricas, expansivas e onipotentes   e fica em estado de hiperatividade continuamente. A depress&atilde;o &eacute; como o oposto   da mania. Sua caracter&iacute;stica mais vis&iacute;vel &eacute; a tristeza. Nessa condi&ccedil;&atilde;o, as   ideias do paciente s&atilde;o poucas, mas persistentes e insistentes, e predominam   entre elas as mais negras e dram&aacute;ticas. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>O ru&iacute;do interno pode ser causado   pelo ru&iacute;do externo?&nbsp;</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Izquierdo</b><b> -</b> Sim, com certeza. Se nos   angustiamos muito com o que est&aacute; acontecendo &agrave; nossa volta, podemos facilmente   desenvolver doen&ccedil;as, desde ansiedade ou depress&atilde;o at&eacute; casos mais graves, como o   transtorno bipolar. Casos como o de soldados que retornam de uma guerra   ilustram como um horr&iacute;vel ru&iacute;do externo pode afetar uma pessoa, pois muitos   deles desenvolvem condi&ccedil;&otilde;es psicol&oacute;gicas ou psiqui&aacute;tricas ap&oacute;s os traumas que   vivenciam. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>O que podemos fazer para filtrar   esses ru&iacute;dos, tanto os externos como os que v&ecirc;m de dentro?</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Izquierdo</b><b> -</b> Para detectar melhor os   sinais devemos melhorar a rela&ccedil;&atilde;o sinal/ru&iacute;do. H&aacute; duas maneiras de fazer isso:   aumentando o volume dos sinais ou abaixando o volume dos ru&iacute;dos. Nem sempre,   por&eacute;m, podemos aumentar o volume dos sinais. O m&eacute;todo mais simples e mais   efetivo &eacute; abaixar o n&iacute;vel do ru&iacute;do ou filtr&aacute;-lo. Em rela&ccedil;&atilde;o aos ru&iacute;dos   externos, temos que tentar n&atilde;o prestar aten&ccedil;&atilde;o em tudo. Quando estamos   dirigindo por uma estrada, por exemplo, n&atilde;o prestamos aten&ccedil;&atilde;o aos p&aacute;ssaros que   est&atilde;o &agrave; nossa direita ou esquerda, prestamos aten&ccedil;&atilde;o &agrave; nossa frente. N&atilde;o   podemos tamb&eacute;m nos deixar levar por informa&ccedil;&otilde;es falsas, por isso a import&acirc;ncia   de cultura, conhecimento e educa&ccedil;&atilde;o. Sem isso podemos confundir qualquer ru&iacute;do   com not&iacute;cia.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">J&aacute; os ru&iacute;dos que v&ecirc;m de dentro como   as doen&ccedil;as psicol&oacute;gicas ou seus sintomas, devem ser tratados. O tratamento   varia, podendo ser um acompanhamento psicol&oacute;gico ou exigir o uso de   medicamentos em casos mais graves. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Em sua opini&atilde;o, o jornalismo   cient&iacute;fico sofre muito devido a ru&iacute;dos causados por not&iacute;cias e informa&ccedil;&otilde;es   erradas, demasiadamente simplificadas ou sensacionalistas? Como melhorar?</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Izquierdo</b><b> -</b> Acredito que sim. Os   jornalistas n&atilde;o s&atilde;o cientistas, ent&atilde;o pode ser dif&iacute;cil para eles distinguir   entre o que &eacute; realmente importante e o que &eacute; ru&iacute;do. Eles reportam o que acham   mais interessante, muitas vezes acertando, mas muitas vezes errando tamb&eacute;m,   confundindo o ru&iacute;do com a not&iacute;cia. Al&eacute;m disso, mesmo quando acertam a not&iacute;cia   podem cometer erros, pois n&atilde;o s&atilde;o cientistas e n&atilde;o podemos exigir que sejam.   Para evitar esses tipos de equ&iacute;vocos, podem consultar cientistas da &aacute;rea sobre   a qual est&atilde;o escrevendo antes de publicarem.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><font face="verdana" size="2">Ricardo Schinaider de   Aguiar</font></b></p>      ]]></body>

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