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ComCiência

versión On-line ISSN 1519-7654

ComCiência  no.127 Campinas abr. 2011

 

REPORTAGEM

 

Conservação, o restauro e espaço

 

 

Maria Clara Rabelo

 

 

A delicadeza e fragilidade das obras raras são admiráveis. Para sua preservação, iniciativas de restauro devem contar com o apoio de uma equipe bem treinada, atividades de conservação preventivas – envolvendo a ação de funcionários e a conscientização de usuários – e um local que permita seu armazenamento adequado. As bibliotecas brasileiras têm se aperfeiçoado nessas atividades, formando profissionais especializados e promovendo reformas que permitam melhor armazenamento de seus acervos, principalmente nesse setor de obras especiais.

Na Biblioteca Central César Lattes, da Universidade Estadual de Campinas, o “espaço físico destinado a abrigar os livros raros, tornou-se insuficiente para armazenar novas coleções”, afirmam Marta do Val e Tereza de Carvalho, da Diretoria de Coleções Especiais e Obras Raras da Unicamp. Mas o problema está com os dias contados. A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) aprovou uma verba de 11 milhões para a construção de um novo edifício, ao lado da Biblioteca Central, para abrigar tal acervo. A conclusão da construção está prevista para daqui a dois anos. Porém, ainda não é certo que todas as obras raras espalhadas pela universidade serão reunidas no local. Já se sabe que serão integrados os acervos documental e bibliográfico da Coleção Sérgio Buarque de Holanda que estão, respectivamente, no Siarq (Arquivo Central do Sistema de Arquivos) e na própria BCCL. Diante disso, “as perspectivas são as melhores possíveis principalmente em relação à preservação e conservação desse acervo”, garantem do Val e Carvalho.

Fechada para obras. Esta é a situação da Biblioteca Central da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, inclusive da seção de obras raras, que passará a dispor de um espaço mais adequado ao seu armazenamento, conservação, e ao acesso dos pesquisadores. A reforma – totalmente custeada pela instituição – prevê mudanças na climatização, substituição das estantes atuais por deslizantes e a criação de uma sala de consulta exclusiva para as raridades. Apesar da entrega estar prevista para junho deste ano, ainda não há data marcada para a reabertura ao público, esclarece a bibliotecária Ana Rüdiger.

Outra biblioteca que passou por uma recente reforma foi a Mário de Andrade, cujas obras no edifício principal e anexo somaram 26 milhões de reais financiados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), sendo que 15% desses recursos foram empregados pela própria Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Além das obras estruturais, foram realizados tratamentos em todo acervo. A ordem agora é prevenir “para retardar ao máximo uma nova reforma do porte da atual”, afirma William Okubo, diretor substituto e supervisor de acervo. Após anos sem funcionários da área de conservação, a biblioteca conta, desde julho de 2010, com uma especialista para as atividades preventivas e de diagnóstico. Além disso, “os funcionários da Seção de Obras Raras têm frequentado cursos especiais de atualização”, como os oferecidos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e pela Associação Brasileira de Encardenação e Restauro (Aber). Também “foi produzido um Manual de Procedimentos para padronizar as atividades de conservação preventiva que as obras raras merecem”, garante Rizio.

Quem orientava a rotina de conservação e restauro do acervo da Biblioteca Brasiliana José e Guita Mindlin era a esposa de José Mindlin, Guita. Especialista na área, ela criou em São Paulo, junto com Teresa Teixeira, a Aber, responsável pela formação da maioria “das pessoas que trabalham com conservação e restauro em todo o Brasil”, segundo Cristina Antunes, curadora desta biblioteca. Apesar de Mindlin ter como princípio a compra de exemplares completos e em bom estado, quando essa regra era quebrada, sua esposa orientava todo processo, cujas dificuldades eram o cuidado, a lentidão e o alto custo do trabalho de restauração. O desejo de que “a obra de uma vida” não fosse desmembrada, mas sim conservada em um lugar digno e em condições adequadas e por ter extrapolado o sentido de uma coleção particular, ganhando, cada vez mais, um caráter público, o casal optou por vinculá-la a uma instituição pública e oficial paulistana, a serviço de estudiosos e da cultura brasileira, através de sua doação. Assim, a Brasiliana dos Mindlin está prestes a ser transferida para suas novas instalações na Universidade de São Paulo (USP) que, por sua vez, “se dispôs a honrar todas as condições necessárias para a manutenção e conservação do acervo e sua disponibilização aos pesquisadores e interessados em todas as áreas de estudos brasileiros”, cini explica Antunes. Esse acervo numeroso e valioso estará disponível no campus universitário, servido de uma equipe e de um laboratório, onde serão realizados restauros e encadernações.

Mas, esse projeto inicial foi o inspirador de outro, o Brasiliana USP, pertencente à reitoria da USP e concebido pela BBM e pelo professor do Instituto de Estudos Avançados István Jancsó, morto em 2010. Atualmente, o projeto é coordenado por Pedro Puntoni, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da mesma universidade. O objetivo é disponibilizar não somente os acervos da Mindlin, mas também a totalidade de obras da instituição pela internet, acreditando na “importância da democratização da informação através do acesso livre,irrestrito e gratuito a essas obras”, contribuindo, também, para a preservação das obras físicas, uma vez que os livros raros dos vários acervos estarão disponíveis em versões digitais.

Com um serviço de preservação próprio, que é referência em tratamento de livros raros, a Fundação Casa de Rui Barbosa, localizada no Rio de Janeiro, além de atender às necessidades de sua coleção, oferece cursos, seminários e estágios orientados na área – iniciativa bastante louvável num país que possui poucos especialistas capacitados em executar intervenções nesse tipo de acervo. Ainda assim, pondera Dilza Bastos, chefe do Serviço de Biblioteca da Fundação, “evita-se o manuseio daquelas obras raras já digitalizadas, preferindo-se o acesso ao documento eletrônico”.

Situação semelhante é a da Fundação Joaquim Nabuco, que também possui um Laboratório de Pesquisa, Conservação e Restauração de Documentos e Obras de Arte (Laborarte) – responsável por práticas de conservação e restauração de documentos, livros e obras de arte. Com apoio e incentivos provenientes da própria instituição, é mantida “uma política de digitalização documental que contribui para a conservação do acervo, possibilitando o acesso e minimizando o manuseio da documentação rara”, explica Lúcia Gaspar.

Na Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna/MPEG, a conservação do acervo raro tem sido preventiva, incluindo a conscientização e orientação dos usuários quanto aos critérios e normas de uso de tais raridades. Apoio e incentivos a essas medidas chegam através de projetos e, também, por meio da iniciativa ministerial. Porém, dificuldades como a “falta de conteúdo programático nos cursos das universidades da região Norte, sobre conservação de acervo antigo, raro e valioso”, implicam na redução do número de profissionais locais “com perfil e qualificação adequada para lidar com este tipo de acervo”, o que é agravado pela concentração de mão de obra qualificada no eixo Centro-Sul, explicam Aldeídes Camarinha e Berenice Bacelar, coordenadora do Centro de Informação e Documentação (CID) e curadora da coleção de obras raras da biblioteca do Museu Goeldi. Apesar do fechamento da referida biblioteca para reforma, a consulta à Coleção de Obras Raras continua aberta à visitação, uma vez que seu espaço foi recém-estruturado através de um projeto apresentado ao Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), em 2009.

Embora no Real Gabinete Português de Leitura não haja laboratório de restauração, a instituição – privada e mantida com recursos próprios – possui em seu quadro de funcionários três encadernadoras que realizam pequenos reparos necessários, esclarece a bibliotecária Vera de Almeida. Diferente do Centro de Informação e Documentação (Cedi), pertencente à Biblioteca Pedro Aleixo, onde existe um setor próprio que monitora as condições de temperatura e umidade do acervo, cuidando também de sua higienização, desinfecção e restauração. Enquanto na Biblioteca de Ciências Biomédicasda Fiocruz, a preocupação não se restringe apenas aos microorganismos. “A segurança de acervos tem sido uma preocupação constante (...). Sinistros (inundações, alagamentos, incêndios...), ações criminosas de depredação e furto, entre outras tantas, também se constituem em danos causados aos acervos bibliográficos”, afirma Jeorgina Rodrigues.

 

O Plano Nacional de Recuperação de Obras Raras – Planor/FBN

Em outubro de 1983, foi criado o Plano Nacional de Restauração de Obras Raras, subordinado ao Departamento de Processamento Técnico da Fundação Biblioteca Nacional, com o objetivo de orientar “procedimentos e técnicas de conservação e restauração de acervos raros, bem como a implantação de laboratórios de restauração, treinamento de pessoal de outros estados, monitoramento do uso de recursos, estruturação do Repertório Bibliográfico Nacional, dentre outras ações”, explica Rosângela Von Helde, bibliotecária e atual gerente do plano.

Em 1994, sua nova nomenclatura substituiu, por decisão do Ministério da Cultura, a palavra “restauração” por “recuperação”. A partir de 2004, o projeto passou a ter gerência própria, bem como seus objetivos foram reestruturados através do surgimento de novas ações, como: “programas de treinamento e capacitação em identificação, organização e tratamento técnico de livros raros; elaboração de critérios de raridade; assessorias e visitas técnicas; promoção de eventos (Encontro Nacional de Acervo Raro – Enar); gerenciamento do Catálogo do Patrimônio Bibliográfico Nacional – CPBN, que reúne registros bibliográficos de obras dos séculos XV ao XIX, de acervos raros de instituições públicas e privadas existentes no país”. Atualmente, busca-se ampliar tal catálogo, através do contato com as instituições mapeadas pela equipe, na tentativa de elaborar um Guia do Patrimônio Nacional de Acervos Raros e Antigos, que será publicado em breve.

Entre as instituições envolvidas nessa matéria, a Biblioteca Central/UFRGS; a Fundação Casa de Rui Barbosa; a Fundaj; a Fiocruz; e o Museu Paraense Emílio Goeldi afirmaram realizar ou já ter participado de algum tipo de atividade conjunta com o Planor/FBN. A bibliotecária da Pedro Aleixo, Matie Nogi, lamentou não haver “nenhuma ação neste sentido, embora haja interesse da instituição em formalizar um trabalho de colaboração dessa natureza”. Segundo a gerente do plano, é importante ressaltar para as instituições interessadas que “o campo de atuação do Planor é restrito aos acervos raros (...). Não há seleção ou necessidade de publicação de editais”. Mais informações podem ser obtidas através dos contatos disponibilizados no site do plano: http://www.bn.br/planor/.

Leia também a reportagem As obras raras das bibliotecas brasileiras.